segunda-feira, 14 de março de 2016

A escuridão do dia.

Entreguei minha filhinha nos braços da enfermeira com meu coração sangrando.
Eu só pensava:
"Não Deus, eu não aceito perder a minha filha."
"Será que vão cuidar bem dela?"
"Será que vão acolher a minha filhinha quando ela chorar?"
"Será que vão dar a mamadeira na hora certa?"
"Será que vão limpar direitinho quando ela fizer coco?"
 
Estava sentada na sala que tem antes de entrar na uti neo, lá tem escaninhos com cadeados para os pais colocarem suas coisas, não pode entrar com nada dentro da uti neo. Eu estava esperando me chamarem para ver como a minha filhinha iria ficar... Que espera terrivel! 
De repente eu ouço um choro.

"Douglas, é a minha filhinha que tá chorando!"
"Não é não, amor. Tem muitos bebês lá dentro, pode ser qualquer bebê."
"Podem ter mil bebês que eu vou reconhecer o choro dos meus."
"Vc vai entrar e vai ver que não é a Mila"

A enfermeira abriu a porta e nos chamou.
Lavei as mãos, passei o álcool, coloquei a roupa e entrei.
Uma sala enorme com muitas incubadoras, muitos bebês com muitos tubos, fios e coisas que nem sei o nome e outros só na incubadora como se fosse um berço, usando suas roupinhas e cobertores. 

O choro ...

Virei a cabeça para o lado direito, vi minha filhinha de longe, dentro daquela incubadora fechada com uma luz azul...
Ela estava dentro de uma caixa transparente, só de fraldinha...
Que aperto no coração, meu Deus!
E sim, era a minha filhinha quem estava chorando, eu sabia!
Fui até ela e a peguei no colo...
Fiquei ali olhando, olhando, olhando...
"Ela é linda!"
"É sim, amor..."

Tempo...
Tempo....
Tempo.....
Eu só queria ficar ali, com ela no meu colo.

"Amor, temos que ir. A Mila precisa ficar e quanto mais tempo ela ficar na luz mais rápido ela vai p casa."
"Eu sei... Mas é tão difícil deixá-la aqui."
Eu estava tão fraca, me sentia tão fraca...
Deixei a minha filhinha lá, dormindo e fui embora p casa ver meu outro bebezinho que também precisava de mim.
Passei a madrugada chorando... Eu acordava de 3 em 3 horas para dar mamar para o João Pedro e chorava muito enquanto ele mamava. A minha filha não estava ali comigo, como será que ela está? Com fome? Com cólica? Será de deram a mamadeira p ela na hora certa? Será que ela fez coco e ninguém limpou? Será que ela tá chorando e ninguém tá indo lá consolá-la? 
Cadê a minha mãe?

Chorei...
Chorei....
Chorei.....

Amanheceu e eu aproveitei que o João Pedro estava dormindo para medir a minha pressão. 
15/8
Liguei para a Dra Claudia e ela mandou eu aproveitar que ia no hospital ver a Mila e me consultar com a ginecologista de plantão e pedir um exame de urina.
João Pedro mamou, arrotou e dormiu. 
Eu e meu marido fomos para o hospital ver a nossa Mila.
Saí do carro e comecei a subir a rampa do hospital.... Me dei conta de como eu estava.
Vestido longo preto, casaco preto, sandálias rasteiras e a bolsa da maternidade bege com marrom.
Cabelos presos, sobrancelhas por fazer e buço também... Eu estava horrorosa!
Mas os meus dias também não estavam diferentes, né...
Eu percebi como a minha aparência estava parecida com o meu emocional por dentro. 
"Deus, isso tudo vai passar. Sei que vai."
Uma dor tão grande eu carregava, um peso enorme...
Eu chorava o tempo todo, até quando eu não queria.

Guardei a minha bolsa no escaninho, lavei as mãos, passei álcool, coloquei a roupa e entrei na uti.
Lá estava ela, dormindo... Barriguinha p baixo, encolhida... Só de fraldinha.
Encontramos com o médico que estava cuidando dela e ele foi super atencioso e disse que estava tudo bem, que a Mila iria ficar no máximo mais um dia. 
A enfermeira abriu a incubadora e eu a peguei.
Ela estava com um tipo de óculos para não pegar a luz nos olhinhos.
Tão pequenininha, aqueles olhinhos tão pequenininhos... 
Meu marido chamou a enfermeira.
"Enfermeira, vc pode tirar esse negócio?"
"Posso, vou tirar p vcs."
Ela tirou com todo cuidado, parecia um adesivo na pele dela, mas não doía...
A Mila estava no meu colo, coloquei minha mão para fazer uma sombra nos olhinhos dela para qdo tirar o óculos e ela abrir os olhinhos não bater a luz forte.
Ela abriu os olhinhos e se aconchegou em meu peito. 
Que felicidade ela estar ali e estar bem!
Sentei e ela mamou um pouquinho... Ela ainda não sugava tão bem e eu estava muito nervosa.

Tempo...
Tempo....
Tempo.....

"Amor, temos que colocá-la novamente na incubadora. Vamos lá fazer a sua consulta e voltamos."
"Tá bom."

Deixei a minha filhinha lá novamente e fui para a emergência. 
A ginecologista de plantão estava fazendo um parto e eu teria que esperar.
Fiquei em pé lá esperando, a emergência estava LOTADA!
Comecei a sentir fome e meu marido foi comprar algo.
Peguei o aparelho e medi a pressão.
16/9
"Ai, meu Deus... Tá subindo."
Meu marido chegou com o lanche e falei sobre a pressão, ficamos preocupados mas não tinha muito jeito, tínhamos que esperar.




Nenhum comentário:

Postar um comentário