segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A escuridão e a luz.

21 de Maio de 2014.
Quarta-feira.

Acordei por volta das 6 horas da manhã, não me lembro bem, sei que foi bem cedo.
A enfermeira veio para me ajudar a levantar e tomar banho.
"Que horas vcs vão trazer meus bebezinhos?"
"Depois que vc tomar banho e tomar café."

Levantei e nossa! Que dor!!!
Cesárea dói muito, muito, muitoooooooo! Deus me livre!
Eu andava e doía, eu ria e doía, eu espirrava e doía, tossia e doía... Credo!
Tomei banho sozinha sentindo aquele "peso" na parte de baixo da barriga... Os movimentos eram todos bem devagar, abaixar nem pensar! A enfermeira ficou no banheiro me esperando, uma fofa!
Eu estava doida para colocar a minha cinta mas quando peguei a cinta na mão já vi que não ia dar... Eu ainda estava enorme!
Ok, relaxa!
Tomei café e logo ouvi o barulho do carrinho no corredor, sim, poderia ser o carrinho com o bebezinho de qualquer outra mãe daquele corredor, não sei como explicar, mas eu sabia que eram os meus bebês! 
Me ajeitei toda na cama para recebê-los, meu marido já pronto para abrir a porta do quarto para eles entrarem.
Toc toc!
Meu marido abriu a porta e a luz entrou no meu quarto... 
A enfermeira sorrindo entrou com o carrinho.
"Olha quem chegooooou!"
"Me ajuda a colocar os dois aqui no meu colo?"
"Claro, mamãe!"
Ela colocou a Mila de um lado e o João Pedro do outro.
Eu não sabia p quem eu olhava, eram meus nenéns, meus filhos! Filhos!

"Vamos dar de mamar p eles, mamãe?"
"Vamos, você me ensina?"
"Claro, estou aqui p isso."

A enfermeira me mandou sentar na cadeira, me ensinou como eu devia apoiar o bebê e todo o resto... Fiz tudo e ninguém queria sugar nada! Eu achei que seria super fácil, só colocar a boquinha do bebê no bico do peito e eles iam mamar. Nada disso.

"É assim mesmo, mamãe. Os bebês são preguiçosos."
"Sendo filho meu então, né..."
E começamos a rir.

Ela começou a me mostrar e a me explicar que temos que ir movimentando o bebê, em alguns casos até tiramos a roupinha deles, mexendo nos pezinhos, nas bochechas e no queixinho para eles acordarem e mamar.
Super funcionou, mas eles sugavam e logo paravam.
Eu ainda não tinha leite, só aquele colostro e como eles sugavam e paravam logo, fui para a sala de tirar leite na bombinha. (Esqueci o nome da sala).
Levaram os gêmeos para tomar banho e mamar (Sim, eles tomaram complemento.) enquanto eu fui para a sala tirar o meu leite.
Aprendi a tirar na bombinha olhando uma outra mãe tirando, no início dói muito e é super estranho mas depois vai acostumando com a dor, fiquei lá uns 30 minutos e não saiu praticamente nada! 
Uns 20 ml de colostro. 😒 fiquei mal, achando que não teria leite e que seria uma péssima mãe.
Entreguei aquele pouquinho para a enfermeira que já levou para um dos gêmeos tomar, ela me disse que ia melhorar e o leite ia chegar.
Peguei o elevador para voltar para o meu andar, no corredor indo para o quarto encontrei meu marido e ele disse que tinha pego o meu celular pq o dele estava sem poder fazer ligações. 
"Tô indo registrar os bebês, tá bom?"
"Tá bom."
"Como foi lá? Conseguiu tirar o leite?"
"Quase nada, mas a enfermeira disse que é assim mesmo."
"Volta lá mais tarde e tenta de novo."
"Vou sim."
"Amor, preciso te dizer uma coisa sobre a sua mãe..."
"O que foi? Ela tá bem?"
"Amor, sua mãe entrou em coma."

Parei de andar, gelei.

"Tudo bem, ela vai sair do coma e nós vamos lá p ela conhecer os netos. O importante é ela estar viva!"
"Amor, vc precisa ser forte para o que pode acontecer."
"Não vai acontecer nada."

Me deu um abraço e foi.
Entrei no quarto e estavam minha tia Elaine e minha amiga Natália.
"Ué, você aqui?"
"É, hoje eu tive uma reunião aqui perto e não vou voltar p trabalho mais hoje não, vou ficar aqui com você."
"Que bom, amiga!"
"E vc, tia? Veio ficar aqui comigo também?"
"Eu sabia que Douglas ia sair, então eu vim."
"Tá bom"

Deitei na cama, parecia que eu tinha feito uma maratona!
Ficamos conversando até que o celular do meu marido toca, uma mensagem do Breno, nosso amigo.
Abri a mensagem.

"A mãe da Camilla faleceu."
"Putz, cara"

Fiquei olhando aquela tela do celular sem saber o que fazer.
Minha mãe não estava em coma, ela se foi!
Meu marido tinha levado o meu celular exatamente por isso, p/ eu não ver nada.

O vazio tomou conta de mim, o teto do mundo inteiro caiu em cima de mim, as paredes estavam me apertando e o chão... Eu não tinha mais onde pisar! 
Não tinha mais como ficar de pé, meu chão desapareceu. Eu caí em um profundo buraco escuro e sem fim.
Eu já não conseguia controlar nada, as lágrimas saíram não só pelos meus olhos mas pelo meu corpo inteiro.

"Minha mãe morreu?"

Eu estava sentada na cama com o celular na mão.
Minha tia Elaine do meu lado direito se levantou do sofá com os olhos cheios d' água, a Natalia que estava do meu lado esquerdo, se levantou na cadeira chorando...
As duas vieram em minha direção e elas não conseguiam falar nada, só choravam. 
Se elas falaram eu não me lembro, eu não conseguia ouvir nada e ninguém.
Minha mãe se foi.
O que eu mais temia, aconteceu.
O que eu iria fazer agora?
O que vai ser de mim sem ela?
Minha vida acabou.
Meu abraço se foi.
Meu cheirinho não existe mais.
Não vou ouvir mais a voz dela, nunca mais.
Ela não conheceu os meus filhos, os netos dela.
Eu não consegui.
Ela não conseguiu esperar.
Ela nem sabia que eu tinha feito uma cesárea!
Não acredito que isso tá acontecendo comigo.
Mãe.
Mãe, eu preciso tanto de vc agora...
Como que eu vou fazer?
Minha mãe, minha mãe...
Meu tudo acabou.
Minha força se foi.
Minha fortaleza, meu sorriso, minha segurança e minha alegria... Acabou tudo!

Minhas lágrimas escorriam pelo meu rosto e ardia, meu rosto todo estava ardendo.
O que eu ia fazer agora da minha vida?
Meu olhar parou em um ponto, lembro de não conseguir enxergar nada, fui parando de chorar...
Ouvi o barulho do carrinho vindo no corredor.
Coloquei o celular na mesinha do lado da cama, sequei o rosto com as mãos, respirei fundo e disse:

"São os meus filhos!"

Não poderia passar essa dor p eles, de forma alguma.
Minha mãe sempre segurou as dores dela de mim, eu faria o mesmo pelos meus.

A enfermeira entrou dentro do quarto com eles e o choro virou sorriso.
A escuridão virou sol.
O terror virou paz.

Ficamos todos ali nos derretendo por eles...
Eu precisava ser forte, por eles e por ela! Minha mãe sempre foi uma mulher forte, eu também tenho que ser. 

Por eles e por ela.






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